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Escrito por Adérito Caldeira em 21 Março 2019 |
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Até o fecho desta edição 202 continuava a ser o número oficial de vítimas mortais do Ciclone IDAI no Centro de Moçambique, porém o deputado da Assembleia da República Juliano Picardo, que chegou a cidade da Beira no passado domingo (17) a pé, afirmou: “Posso vos garantir que os números que são apresentados em relação as vidas humanos não são correctos, não existem números exactos, todos os dias aparecem cadáveres”.
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O deputado que trabalhou na cidade do Chimoio durante a semana passada, é assessor político do partido Renamo, e no domingo (17), diante da falta de comunicação com a família que reside no bairro de Matacuane, partiu de carro para a cidade da Beira na companhia de outro deputado, Francisco Maingue, e do general na reserva Hermínio de Morais mas tiveram de abandonar a viatura 4x4 pouco depois da portagem de Nhamatanda.
“Atravessamos a portagem e na primeira ponte existe um rombo de cerca de 1000 metros. Era uma área residencial, na quinta-feira quando passei para o Chimoio vi ali muitas casinhas tradicionais que a nossa comunidade sempre faz e neste momento não tem absolutamente nenhuma”, relatou Juliano Picardo acrescentando que os locais comentaram que na região existia “uma represa de irrigação de campos, um canavial, e não suportou a quantidade de água que chegou do rio Metuxira e cedeu, a água levou tudo o que encontrou pela frente”.
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O deputado e os seus companheiros de viagem cruzaram o rombo na novíssima Estrada Nacional nº6 dentro de um barco a remos, propriedade de um agricultor britânico que disponibilizou dois trabalhadores para garantirem a ligação e têm estado a transportar tantas pessoas quantas as autoridades que ali estão ausentes.
Evite-se “o envio de dirigentes para o local do sinistro, apenas estamos a gastar o pouco que temos que poderia beneficiar a muita gente"
Na outra margem não havia meios de transporte e a solução foi caminhar os 100 quilómetros que faltavam para a cidade da Beira. Durante o trajecto, com a água “à altura dos joelhos”, Juliano Picardo contou ter tido “a oportunidade impar e sentimental de socorrer pessoas em cima de árvores correndo risco da minha própria vida. Imaginem o que é, desprovido de tudo, com as minhas próprias mãos ter que carregar seis cadáveres e colocar ao longo da Estrada Nacional nº 6”.
“Assisti viaturas com pessoas ainda dentro, mas o helicóptero ainda girava por cima de nós e a informações que nos chegou é o Presidente a ver a situação de alagamento na zona de Lamego, infelizmente o helicóptero não baixou, provavelmente se tivesse tirado aquela viatura talvez pudéssemos retirar os corpos que ainda se encontravam no interior”, lamentou e deixou um apelo ao Governo e as instituições humanitárias: “os meios aéreos, os poucos que existem, parem de sobrevoar para fazerem fotografias, para fazer filmagens e vão ao encontro de vidas humanas”.
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É que com o Presidente da República e comitiva em permanentes sobrevoos sobre as regiões inundadas os 11 helicópteros à disposição ficam ainda menos para recolher os 347 mil cidadãos que se estimam estejam em risco de vida nos distritos de Búzi, Chibabava, Nhamatanda e Dondo, na província de Sofala. Há ainda relatos de um número não conhecido de cidadãos sitiados no distrito de Sussundenga, na província de Manica.
O representante do povo de Sofala pediu para que evite-se “o envio de dirigentes para o local do sinistro, apenas estamos a gastar o pouco que temos que poderia beneficiar a muita gente. Eu presenciei a chegada de um boeing 737 com meia dúzia de ministros, ontem (terça-feira, 19), não trouxe na sua bagagem nem uma carga para a cidade da Beira, para 15 minutos depois o voo levantar em direcção a Nampula”.
“Apoios estão sendo canalizados para os centros de acomodação, estamos a esquecer que a cidade da Beira é essencialmente urbana”
Picardo, que residia na capital de Sofala quando no ano 2000 o Ciclone Eline a fustigou compara “foi forte mas não se equipara a este”, “não há nenhuma residência ou algum edifício que resistiu a este vendaval de 9 horas, não há um único vidro”.
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“A Ponta-Gêa, Palmeiras, Macuti, Estoril toda aquela área de lazer não existe, os únicos edifícios intactos é o Dom Carlos e o Estoril”, detalhou Juliano Picardo assinalando que as residências oficias do presidente do município e do governador também não aguentaram com os ventos de 200 quilómetros por hora.
O parlamentar voou para a cidade de Maputo para lançar um apelo as autoridades: “os apoios estão sendo canalizados para os centros de acomodação, estamos a esquecer que a cidade da Beira é essencialmente urbana, 90 por cento das coberturas de edifícios e residências pessoais desapareceram e estas pessoas precisam também de um apoio. Não tem água, não tem luz, não tem dinheiro porque não podem levantar, não tem combustível”.
A cidade que ficou completamente arrasada tem 533.825 habitantes, de acordo com o Censo de 2017, contudo a receberem assistência humanitária estão oficialmente apenas 14.198 pessoas em toda província de Sofala, aquelas que estão nos centros de acomodação.
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Picardo concluiu denunciando “o oportunismo dos nossos empresários. A inflação de preços, uma vela de iluminação custa 25 meticais, o transporte público foi inflacionado a circulação na cidade da Beira custa 30 Meticais, o prato de frango custa 1.500 Meticais, os nossos empresários têm que ter o sentimento de solidariedade em momento de calamidade”.
Quiçá por isso durante a tarde desta quarta-feira (20) cidadãos famintos tentaram assaltar um armazém com produtos alimentares, no bairro de Matacuane. A polícia interveio disparando balas reais mas a população respondeu com pedras, a situação acabou por acalmar-se sem vítimas.
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"Deus criou as pessoas para amarmos e as coisas para usarmos, porque então amamos as coisas e usamos as pessoas?"
quinta-feira, 21 de março de 2019
“As pessoas já não levam os corpos para a casa mortuária, ficam com elas” revela deputado Picardo que clama por apoio para quem está no que resta da sua casa
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