"Deus criou as pessoas para amarmos e as coisas para usarmos, porque então amamos as coisas e usamos as pessoas?"



segunda-feira, 6 de outubro de 2014

06/10/2014

domingo, 5 de outubro de 2014

Operacionalização do BRT prevista para os finais de 2017

Operacionalização do BRT prevista para os finais de 2017
                                   Operacionalização do BRT prevista para os finais de 2017
 
03 Outubro, 2014
Iniciou esta quinta-feira (02), na capital do país, a implementação do projecto Bus Rapid Transit (BRT) ou simplesmente Corredor Exclusivo para Transporte, inserido no âmbito da elaboração do Plano Director de Mobilidade de Transportes a nível da área metropolitana de Maputo.
A primeira fase que iniciou tem a conclusão prevista para Agosto de 2015 e encontra-se inserida no âmbito do projecto de engenharia que passa necessariamente por um trabalho de pesquisa na via pública e dos trabalhos do estudo ambiental que estão a ser realizados.
Com o início das obras previsto para o segundo semestre do próximo ano, a operacionalização do BRT está garantida para os finais de 2017, segundo avançou João Matlombe, vereador do pelouro dos transportes no Conselho Municipal da Cidade de Maputo (CMCM).
“A nossa previsão é que as pessoas comecem a beneficiar-se do funcionamento do sistema em princípio até finais de 2017.”
Avaliada em 225 milhões de dólares norte-americanos, a Linha Um do projecto conta com uma extensão de cerca de 17 quilómetros e irá percorrer cinco avenidas da capital do país, nomeadamente Eduardo Mondlane, Julius Nyerere, Guerra Popular, FPLM e Acordos de Lusaka.
O projecto tem 20 estações (paragens) caracterizadas por terem uma plataforma elevada e nivelada com a porta dos autocarros, permitindo o embarque e desembarque dos passageiros com maior velocidade.
No que tange as terminais, Matlombe explicou que serão construídas duas, e requalificadas outras duas que abrigarão um total de 72 autocarros com capacidade para 160 passageiros.
“Do ponto de vista prático estamos a falar da requalificação na zona do Museu onde vamos instalar a terminal, da alteração na zona da Praça dos Trabalhadores, também vamos ter uma terminal para poder acomodar o modelo de infra-estruturas que vai ser integrado. Estamos a falar, também da instalação de mais duas terminais, uma na Praça dos Combatentes, que vai ser exclusivamente do projecto BRT, e uma terminal, com a estação de serviços e área de recolha dos autocarros, na Praça da Juventude, em Magoanine.”
A nova realidade irá resolver, segundo a fonte, um problema que os transportes semi-colectivos não conseguem, minimizando até certo ponto a duração da viagem de cerca de duas horas para 25 a 40 minutos, dependendo da carreira (expresso ou normal).
Matlombe garantiu que a introdução do novo modelo de transporte não trará nenhuma modificação no que tange a estrutura tarifária.
“Nós fizemos o modelo financeiro do projecto, isso permite implementar o projecto dentro dos custos actuais da tarifa mediante o mecanismo estruturado do subsídio que obviamente passa pelo modelo actual que o Estado tem subsidiado sem encarecer aquilo que é o custo real que o passageiro tem para apanhar o transporte público ou semi-colectivo”, finalizou o vereador.
Concluído o projecto, os transportes semi-colectivos de passageiros vulgo chapas 100 passarão a ser alimentadores do BRT, ou seja, deixarão de levar passageiros à cidade de Maputo nas rotas abrangidas pelo novo modelo, nomeadamente Magoanine/Museu (serviço expresso), Magoanine/P.Trabalhadores (serviço expresso), Magoanine/P.Trabalhadores (serviço normal), P.Combatentes/Museu (serviço normal).

PR inaugura primeira fábrica de automóveis em Moçambique

O Presidente da República, Armando Guebuza inaugurou na manha desta quinta-feira (02) a Matchedje Motor, uma fábrica de montagem de automóveis na Machava, no Município da Matola.
Falando minutos a após a inauguração da infa-estrutura, Guebuza disse  trata-se de uma fábrica que demonstra e sublinha  de forma inequívoca que Moçambique está a crescer e está a explorar  de forma mais inteligente  possível a tecnologia.
“São tecnologias que estão a ser colocadas ao serviço do nosso crescimento e ao dispor dos moçambicanos. A Matchedje Motor  constitui a primeira marca  automóvel registada e produzida em Moçambique  facto que alegra mais ainda a nossa auto estima como moçambicanos “, explicou.
A implantação daquela unidade fabril surge no contexto  da cooperação de amizade e solidariedade  que existe entre Moçambique e China.
” Hoje uma vez mais a China está connosco neste contexto estratégico que desenvolveu-se entre os dois países. Por isso estamos hoje na inauguração  desta fábrica, resultado da implementação  de política nacional de industrialização que prevê  a criação do modelo de desenvolvimento industrial  de que essa empresa se beneficia”, asseverou.
Para o presidente, a indústria automóvel constitui uma alavanca para o desenvolvimento sócio-económico  para o país, inaugurando assim mais postos de trabalho  e oportunidades para os moçambicanos poderem  demonstrar as suas capacidades e habilidades,  respondendo aos padrões internacionais.
“De modo geral  esta indústria tem o potencial de  contribuir para  redução  das importações de viaturas   ligeiras e pesadas e propiciar soluções através de tecnologias de ponta. A implantação  e entrada em funcionamento da Matchedje Motor abre boas perspectivas para o crescimento da economia moçambicana”, frisou Guebuza.
Na ocasião, a Governadora da província de Maputo, Maria Jonas explicou  que o projecto Matchedje é o mais importante em Moçambique  e  o governo tem um alto grau de atenção e vai dar  todo o apoio, pois  a sociedade precisava de uma indústria automóvel própria. “Portanto, esperamos sinceramente que Matchedje produza  veículos de boa qualidade, o mais rapidamente possível “, referiu.
Por sua vez, o Presidente do Conselho de Admnistração da Machedje Motor Cau Hongru disse  que é com alegria que testemunham a inauguração da primeira fábrica de  montagem de automóveis em Moçambique.
“O projecto  Matchedje que hoje começa é um programa de desenvolvimento consistente e  nos próximos 05 á 10 anos,  teremos um plano de construção de um parque industrial de 590 hectares.E para alcançar a plena capacidade vamos fabricar quase  todos os tipos de automóveis, incluindo a produção de uma variedade de auto peças, máquinas formadoras, produtos químicos, indústria leve, automóvel electrónico cadeia da indústria, em seguida, promover plenamente a indústria automobilística e desenvolvimento económico de Moçambique”, explicou.
Ainda segundo  Cau Hongru, a capacidade de produção será de 120 á150 viaturas por mês, nesta primeira fase, incluindo a produção de vários tipos de acessórios e uma cadeia de indústria automóvel , promovendo desta forma o crescimento económico do país.
De acordo com o Embaixador da República da China em Moçambique Li Chunhua referiu que é com grande satisfação que fazem o lançamento dos primeiros carros de marca Matchedje em Moçambique.
” Isso demonstra  que Moçambique tem um grande potencial na área da indústria automóvel e temos a ambição de nos expandirmos o mais rápido possível não só para dentro do país como também para os países africanos. E os nossos produtos vão cobrir  viaturas de pequeno, médio e grande porte,  a óleo diesel e gasolina  com  duas e quatro rodas motrizes”, afirmou.
 De referir que nesta primeira fase de implementação a Matchedje Motor vai montar  quatro á cinco carros diários  e 150 carros mensais.

Dhlakama diz que o Governo de Tete não o queria nas cerimónias do Dia da Paz

05 de Outubro de 2014, 10:21

O líder da Renamo, maior partido da oposição, em Moçambique, Afonso Dhlakama, acusa o governo da província central de Tete de ter criado condições para que ele não participasse na cerimónia conjunta com o governo, de deposição de flores na Praça da Independência, alusivo ao dia do Acordo Geral de Paz, assinado em Roma, entre o executivo e a Renamo, em 1992.
A cerimónia iniciou e terminou por volta das 8 horas de ontem, sem a presença do dirigente da Renamo, o que foi criando expectativas de que ele não cumpriria com a sua palavra.
Dhlakama, em campanha eleitoral para a sua eleição ao cargo de Presidente da Republica e do seu partido para à Assembleia da Republica, o parlamento, e para as Assembleias Provinciais, no escrutínio de 15 de Outubro corrente, prometeu esta semana à nação que estaria, pela primeira vez na história do AGP, numa cerimónia alusiva ao dia.
Porém, as 9 horas e 12 minutos de ontem, viaturas e motorizadas de membros e simpatizantes da Renamo desfilavam na Avenida da Liberdade, de fronte a Praça da Independência, acto sinalizando que Dhlakama estava a cumprir com a sua palavra, o governo de Tete já se preparava para abandonar o local.

Dhlakama depositou as flores sozinho.

Eu vim participar na cerimónia oficial. Comunicamos isso em Maputo, e aqui. Eu estava para chegar as 8h30, mas no âmbito do protocolo, eles ligaram e avisaram que devia atrasar mais 20 minutos. Cheguei há muito tempo e estava parado lá fora, mas eles fugiram. Não querem ver Dhlakama”, disse Dhlakama.
Se eu estivesse em Maputo estaria com o Presidente Guebuza lá. Isto é resultado do acordo de 5 de Setembro. Eles fugiram porque não aguentaram. Não vou criticá-los”, afirmou ainda.
Disse ainda que não participava antes em cerimónias nacionais porque “as coisas não estavam claras. Agora estamos a construir uma verdadeira República. Havia descriminação de heróis”.
O compromisso que assinamos em Maputo põe fim a história com base partidária. Vamos despartidarizar o Aparelho de Estado. Vamos criar uma nova República que tem respeito pelos direitos do homem. Governantes e governados valem o mesmo em democracia, com a pequena distinção de que são os governantes que devem prestar contas aos governados”, disse Dhlakama.
AIM

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Frelimo promotora de confrontos na campanha eleitoral


 

Em quase todos os casos registados de confronto na campanha eleitoral envolve os elementos ou simpatizantes da Frelimo e a polícia como sempre usada como instrumento de intimidação aos outros partidos, nunca prende a estes. A CNE, a CIP tinha que afirmar se imparcialmente e resolver este problema dos Moçambicanos, já que o governo nada faz.

Os confrontos registados na província de Gaza foram provocados pelos simpatizantes da Frelimo e vendo o vídeo destas escaramuças houve muitos carros destruídos perante o olhar cego da policia que acompanha o David Simango. Quer dizer foi entre a Frelimo e o MDM. No dia 25 de Setembro, em Nampula outra vez, a Frelimo contra o MDM e a polícia prendeu somente os do MDM e os da Frelimo nenhum. No dia 02 de Outubro, em Nampula mais uma vez, confronto entre a Frelimo e a Renamo onde a polícia prendeu 6 jovens da Renamo.

Porque é que os confrontos sempre envolvem a Frelimo contra os dois partidos? Porque é que a Renamo e o MDM não se confrontam? Porque é que os da Frelimo que são provocadores da confusão nunca são presos como fazem os outros? Onde está a implacabilidade proferida pela RPM e CNE contra escaramuças na campanha eleitoral? A tal responsabilização se referia somente aos partidos da oposição? Querem me dizer que Moçambique é o mesmo que dizer Frelimo? Ou os outros que pensam diferente que os camaradas não são moçambicanos, filhos de moçambicanos? Quando é que vão aprender a viver na prática a democracia e fazer as coisas com civismo? Quando vão deixar de instrumentalizar a polícia? Quando deixará de usar os pobres inocentes na prática de actos ilícitos? Quando vão fazer um jogo limpo, sem intimidar as pessoas e assim ganhar porque o povo lhe votou livremente?

O caso de Nampula é quase isolado, porque acontece somente na e nos bairros da cidade. Mas em Gaza, os acontecimentos são mais generalizados, mais de três distritos acontecer ataques as caravanas da oposição. Pergunto eu a Frelimo e os irmãos de Gaza: a oposição não pode manifestar se em Gaza porque ela é oriundo do “Norte”, que só podem ser governados e nunca governar? Têm a noção verdadeira de que Moçambique é do norte ao sul e todos moçambicanos têm os mesmos direitos?

Foram registadas várias irregularidades cometidas pela Frelimo durante a campanha, sobretudo no uso dos bens do Estado (viaturas) com chapas de matriculas identificadas, mas até hoje ninguém se pronunciou a responsabilizar. Mas pequena coisa que até se pode tolerar, torna-se intolerável quando é a oposição. Senhores, aprendam a exercer a democracia.

Aconselho aos responsáveis das eleições para aplicar medidas fortes e sem recuos estas atitudes antidemocráticas que os irmãos de Gaza praticam. Se acontece assim durante as campanha, o que será no dia das eleições? Será que há condições para que os simpatizantes da oposição possam exercer o seu direito de cidadania sem serem atacados ou serem mortos? Se continuam com o mesmo comportamento, quer dizer que não haverá condições para os outros partidos possam votar livremente. E não havendo estas condições, exemplarmente que seja disciplinado esse povo não havendo eleições naquele ponto do país. É uma posição drástica, mas será ajudar a compreender que é preciso mudar de pensamento erróneo que têm e passar a respeitar e tratar a todos como moçambicanos. Assim não repetirão essas coisas.

Repito, a Frelimo é responsável de todas as escaramuças que acontecem durante a campanha, porque sempre envolvem simpatizantes desta contra os da oposição e não entre os da oposição. Saibam que Moçambique não é propriedade privada da Frelimo, Moçambique pertence aos moçambicanos que são pluricultural – político e étnico.

domingo, 21 de setembro de 2014

Afungi vai trocar as palhotas e as machambas por gigantescas fábricas de gás

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Palma_Mocimboa_estradaNuma área onde se vive sem luz, entre pequenas machambas de mandioca e de feijão, vai nascer um complexo industrial tão grande que toda a riqueza produzida pelo país num ano não chega para o pagar.
O sol começa a declinar no horizonte, o calor abrasador do Norte de Moçambique torna-se mais tolerável e aos poucos o enorme campo aberto ao lado da aldeia do Quitupo enche-se de rapazes que se preparam para a partida diária de futebol.
Ali, pouco mais tempo lhes resta para alimentarem o hábito. Em breve, todo o espaço a perder de vista desde o campo de futebol improvisado será ocupado por quatro gigantescas fábricas de liquefacção de gás. Toda a população de Quitupo e das outras aldeias situadas na península de Afungi serão deslocadas para fora dos lugares onde sempre cultivaram as suas machambas, onde criaram os seus filhos, enterraram os seus mortos e onde ainda jogaram as suas partidas de futebol. Sem que percebam ainda muito bem o que está a acontecer, tornaram-se protagonistas de uma das maiores transformações que a face da terra vai conhecer nos próximos cinco anos: numa zona das mais pobres de África, onde se vive em palhotas sem água canalizada, nem luz, nem esgotos vai nascer um complexo industrial.
Os sinais dessa transformação são hoje bem visíveis na paisagem e nas fisionomias. Um frenético vaivém de camiões nas estradas de terra batida levanta ondas densas de pó. A cada passo homens ou mulheres com máscaras e óculos de protecção orientam o tráfego. Nas estradas remotas de Afungi vêem-se mais sinais de limite de velocidade ou cartazes com apelos ao respeito pelos peões do que em qualquer cidade moçambicana. Na aldeia, grupos de pessoas com fardas da multinacional norte-americana Anadarko circulam em busca de dados para um censo que antecipa o reassentamento dos habitantes.
Com tão grande transformação à vista há muito para dizer, mas ninguém quer falar. Nem sequer o chefe de posto administrativo. As feridas abertas pela contestação das comunidades à mudança radical que o gás lhes impõe estão ainda por sarar. Hoje, porém, todos sabem que não há memórias familiares, nem machambas, nem cultos funerários capazes de resistir à energia do gás. Em breve, ali, numa área equivalente a sete mil campos de futebol, serão construídas quatro gigantescas fábricas de liquefacção de gás natural que custarão mais do que toda a riqueza que Moçambique produz num ano inteiro – o PIB em 2013 rondou os 15 mil milhões de euros. As estimativas apontam para a existência de recursos na bacia do rio Rovuma, cuja foz fica a 50 km de Quitupo, capazes de abastecer a China durante as próximas três décadas.
Primeiro o carvão, depois as pedras preciosas, agora o petróleo e o gás. Moçambique, desde sempre visto como um país sem grandes recursos minerais tornou-se a nova estrela das ambições das multinacionais da energia. A prospecção dura há décadas, mas só há menos de dez anos se fizeram investimentos a sério para explorar o potencial do subsolo ou o fundo do mar. “Acontece o mesmo com uma macieira, primeiro apanham-se as maçãs mais à mão e só mais tarde é que se colhem as que ficam no cume da árvore”, exemplifica Paulo Mendonça, administrador da Galp Rovuma, a empresa portuguesa que participa num dos consórcios do gás na província do Cabo Delgado. Desta vez, porém, o que era supostamente o fruto mais remoto acabou em descobertas que ficaram muito para lá de todas as expectativas: na província de Tete haverá reservas de 23 mil milhões de toneladas de carvão, o suficiente para garantir a procura dos cinco maiores importadores durante cerca de 30 anos; e ao largo da foz do rio Rovuma, que faz a fronteira entre Moçambique e a Tanzânia, as reservas de gás natural descobertas pelos consórcios da Anadarko e da italiana ENI, no qual a Galp tem uma participação de 10%, ascendem 56 triliões de metros cúbicos, uma quantidade que daria para satisfazer a procura portuguesa durante o próximo milénio.
O admirável mundo do gás
A descoberta de tantas riquezas num dos países mais pobres do mundo teve o impacto de um furacão na economia. Entre 2007 e 2013 o investimento estrangeiro em Moçambique aumentou 17 vezes. No ano passado, apenas, cresceu 36% e já representa 46% de toda a riqueza produzida pelo país (PIB) durante um ano. Os principais eixos desta transformação que levará equipamentos e técnicas do século XXI a áreas rurais que vivem praticamente ao ritmo de há um século são o corredor de Nacala, uma linha ferroviária de 912 quilómetros que ligará Tete a Nacala, onde existe um porto natural de águas profundas e, principalmente, a zona do litoral entre Mocímboa da Praia e Quionga, já na margem do Rovuma. É aqui que as gigantescas reservas de gás extraído a distâncias entre 40 e 55 quilómetros da costa, a profundidades entre os 1000 e os 2500 metros vão ser processadas.
De súbito, o que era uma província esquecida tornou-se na estrela do país. Palma, a capital do distrito do gás, deixou de ser o lugarejo que, no tempo do administrador distrital Fernando Natal, era frequentemente atacada por leões para se tornar numa cidade inundada por jipes topo de gama tripulados por estrangeiros de todas as proveniências. A estrada que vai de Pemba - a Porto Amélia dos tempos coloniais que permanece como a capital de Cabo Delgado - até Palma deixou de exigir viagens por etapas, que poderiam demorar dias. Agora, para se vencer os seus cerca de 350 quilómetros bastam umas horas. Entre Palma e Mocímboa da Praia, onde os aviões da Anadarko aterram a cada passo no aeródromo outrora uma base aérea do exército colonial português, a estrada feita pelo consórcio luso-brasileiro Andrade Gutierres e a Zagope é novíssima. Em Mocímboa e em Palma o preço dos terrenos atingiu números estratosféricos. “Um terreno de 20 por 20 metros pode custar 125 mil euros”, diz José, um negociante de materiais para a construção civil que viu a sua empresa disparar com a procura da Anadarko. Para se ter ideia do que está em causa, note-se que a maioria da população do Norte de Moçambique (cerca de 56% do total) vive numa economia de subsistência, com menos de dois euros por dia.
Atraídos pela riqueza que se anuncia lá para 2018 ou 2019, uma vaga de estrangeiros dirige-se em números crescentes para Pemba, para Mocímboa ou para Palma. Uma estimativa oficial admite que a capital da província possa registar um aumento de população de 30% até 2020. “Estamos a assistir a uma avalanche de estrangeiros. E não só. Também há muitos moçambicanos a virem para cá. O problema é que nós não temos infra-estruturas para receber tanta gente”, nota D. Luís Fernando, um carioca que é bispo de Pemba. Hoje, a cidade regista frequentes quebras de fornecimento de electricidade e o sistema de abastecimento de água atingiu o seu limite. Ainda assim, Pemba só agora começa a dar os primeiros passos para se assumir como a capital logística do gás. O novo porto foi adjudicado em Agosto. Vai custar 112 milhões de euros. Por arrasto, italianos, portugueses ou sul-africanos disputam arduamente terrenos, apartamentos, frentes de mar para investir em lojas, hotéis ou residências para uma classe de consumidores que não existia até agora.
Um universo paralelo
Mocímboa e, principalmente, Palma são hoje os pólos onde o frenesim do gás mais se faz sentir. Os trabalhadores da Anadarko ou da ENI concentram-se em autênticos fortes, protegidos por arame farpado. Às seis da tarde há recolher obrigatório. Os contactos com a população são desincentivados, quando não informalmente proibidos. Sobre o que estão a fazer, paira um véu de silêncio. Gerson Correia, um moçambicano que trabalha na Anadarko em Palma remete explicações para Maputo, mas para se entrar em detalhes as autorizações têm de vir de Houston, no Texas, onde a companhia tem a sua sede. Os alimentos que comem ou as máquinas que usam são importadas. Em Palma é difícil encontrar bens de primeira necessidade como álcool etílico. Multinacionais especializadas em operações logísticas, como a Bolloré, conseguem fornecer com o retalho do primeiro mundo esta ilha isolada num recanto remoto da África negra.
Para os moçambicanos, a vida é mais difícil. A complexidade técnica das operações de extracção ou de transformação de gás remete a maioria esmagadora dos habitantes de Cabo Delgado para a margem do processo. Lucas Saimoni Chimuachi, 32 anos, desempregado e pai de sete filhos vive na Aldeia da Paz, a pouco mais de 150 quilómetros de Palma, ouviu falar de empregos lá para a zona do gás, mas os seus parcos recursos nem sequer chegam para que os possa disputar. “Não tenho dinheiro para a viagem nem para dormir lá”, diz. Sem qualificação nem hábitos de trabalho assalariado, os habitantes da província são não só ultrapassados pelos ocidentais e pelos moçambicanos do sul, mas também pelos tanzanianos, que se encontram com frequência nos cafés, nas lojas ou nos escassos hotéis da região. Alguns moradores conseguiram empregos, mas os menos qualificados e mais mal pagos entre todos. Como os das mulheres e homens que, com ar de enfado, levantam uma placa verde sempre que um camião cruza uma estrada poeirenta na península de Afungi.
Muitos proprietários de terrenos, entre os quais os que moram em Quitupo e nas aldeias que serão soterradas pelas fábricas de gás, vão receber elevados montantes. Mas para comunidades para as quais a economia monetária é uma realidade distante, o dinheiro que está a entrar em Cabo Delgado pode ser um problema. “Há pessoas que nunca viram dinheiro grande. Por vezes elas vendem as suas casas e como não o sabem gerir, compram carros ou motas e depressa ficam sem nada”, sublinha D. Luis Fernando. Os riscos de abuso no consumo de álcool são outra das preocupações que levam as autoridades e actores sociais a recomendarem um acompanhamento cuidado de comunidades sujeitas a uma brutal transformação nos seus hábitos de vida.
O segredo como negócio
O gás tornou-se uma entidade reverencial e para as autoridades locais a sua exploração é a última fronteira entre a persistência da pobreza e um futuro que se imagina com as torres de vidro e aço do Dubai ou de outros paraísos dos hidrocarbonetos. Para as elites políticas locais, esse caminho dispensa perguntas. Quanto menos ruído, melhor. É por isso que o chefe do distrito de Palma, Pedro Jemusse, recusa entrevistas e ordena ao seu chefe de Posto de Quionga que não fale aos jornalistas. A mesma cadeia de silêncio que se fez ouvir em Quitupo repete-se por todo o lado. 
Esta hostilidade pode em parte explicar-se pelas dificuldades que permanecem em negociar a recolocação dos cerca de 3000 habitantes da península de Afungi, onde fica Quitupo. Hoje, parece evidente que a maioria está disposta a negociar uma indemnização e deixar as suas machambas de mandioca ou os seus frágeis barcos de pesca para a memória. Depois de episódios de violência e de sistemáticas denúncias de intimidação, a participação do Governo central nas negociações foi capaz de abrandar a obstinação dos cidadãos. Como a ministra Esperança Bias (ver entrevista nestas páginas), o governador de Cabo Delgado, Abdul Razak, um médico com uma longa carreira política, diz ser “fundamental haver diálogo e explicação às pessoas do que está a acontecer. Estes investimentos vão-lhes trazer benefícios”, diz. “Reassentar pessoas é sempre um processo difícil”, reconhece Fernando Mendonça, da Galp. “As pessoas vivem lá, têm lá os seus cemitérios, as suas casas, os seus pequenos portos de pesca”. São “dores de crescimento”, acrescenta.
Os apelos à transparência e ao envolvimento das populações, certamente influenciados pela pressão nacional e internacional sobre o novo ‘el dorado’ da energia, parecem fazer pouco sentido para Pedro Jemusse – a reportagem do PÚBLICO só pôde decorrer com normalidade depois de chegarem ordens de Maputo e de Pemba. No mês passado, numa reunião com moradores na zona onde se vão construir as fábricas de gás liquefeito, os representantes do Centro Terra Viva, uma ONG com sede no Maputo que representa as comunidades locais foi alvo de ameaças e insultos por parte do administrador de Palma. “As comunidades das aldeias abrangidas pelo projecto da fábrica de gás natural liquefeito foram, em todas as consultas, praticamente impedidas de se expressarem de forma livre e aberta, e as Organizações da Sociedade Civil foram verbalmente ameaçadas e agredidas”, queixa-se o Centro. “Há muita gente que não foi ouvida. Ou se foi as suas preocupações não foram levadas em conta”, confirma D. Luis Fernando. 
Saber que impactes vai ter este projecto na vida concreta das pessoas é, de resto, a maior incógnita do momento. A Fundação Friederich Ebert, ligada ao Partido Social Democrata da Alemanha, avisa que os desafios de futuro em Moçambique quanto à transparência no uso dos recursos e na sua redistribuição são enormes. À sua frente, o país tem o caminho do Botswana, que canalizou grande parte dos ganhos com a exploração de recursos naturais para a segurança social e para a educação, ou do de Angola e da Nigéria, “que servem como exemplos negativos no contexto africano”. O Governo garante ter a preocupação de privilegiar “infra-estruturas de transporte e o desenvolvimento da agricultura e da indústria agro-alimentar”. E avança com uma estratégia para a formação no sector dos recursos minerais que prevê qualificar nos próximos anos 4.120 moçambicanos em geociências, engenharia de processamento de petróleo ou sísmica.
Entre tantas expectativas, sabe-se ao certo que para as comunidades esquecidas dos distritos de Palma e Mocímboa, o remanso quotidiano dos últimos séculos está condenado. Para uma comunidade pobre, que exaspera pela falta de água a cada estação seca, que se alimenta de mandioca, peixe, milho e feijão cafreal, que não dispõe de cuidados de saúde nem escolas é difícil acreditar que a vida vai piorar. O que não se sabe é se poderão beneficiar das novas riquezas como muitos esperam. África não é propriamente um lugar onde abundem bons exemplos sobre a redistribuição. Moçambique tem em Palma uma boa oportunidade para mostrar que quer ser uma África diferente.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

"Dhlakama já chegou, o povo de Moçambique ganhou, a democracia ganhou", líder da Renamo na capital de Moçambique
 
 
 
Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Redação  em 04 Setembro 2014
 
 
O líder da Renamo Afonso Dhlakama desembarcou no princípio da noite desta quinta-feira (04), no Aeroporto Internacional de Mavalane, na capital moçambicana, onde foi recebido com apoteose e ovações por centenas de membros, simpatizantes e curiosos. Ele regressa a Maputo quase cinco anos depois e nesta sexta-feira (05) deverá manter um encontro com o Presidente da República, Armando Guebuza, para homologarem a declaração do cessar-fogo e dos três documentos consensualizados na mesa do diálogo político.
Afonso Dhlakama abandonou o seu esconderijo algures nas matas de Gorongosa, na província de Sofala, e viajou até à cidade de Chimoio, em Manica, onde manteve um encontro com a população local, acto que marcou o início de campanha eleitoral que já vai no quinto dia.
 

Na sua aparição pública depois de anos escondidos, supostamente algures em Sofala, diga-se em abono da verdade, o presidente da Renamo foi recebido de forma pomposa, aos gritos e emoção e aplausos. Num comício, ele disse que vai participar nas eleições para lutar contra a má gestão do país. "A minha ausência foi necessária para repor o multipartidarismo".
 

Horas depois, Dhlakama, que se considera "pai da democracia", abandonou o centro da cidade de Chimoio em direcção ao aeroporto local, a partir de onde voou até Maputo.
A partir da da bagageira de uma carinha, o líder da Renamo dirigiu para a multidão que o aguardava durante horas a fio, tendo dito que quando disse que ia obrigar a Frelimo sentar para dialogar ninguém acreditava mas eis a prova. E agradeceu ao povo pela sua paciência com vista a alcançar a democracia.
"Dhlakama já chegou, o povo de Moçambique ganhou, a democracia ganhou, Dhlakama trouxe a democracia", disse Dhlakama a centenas de membros e simpatizantes do seu partido que afluíram ao Aeroporto Internacional de Maputo.
Após o discurso, Dhlakama foi conduzido para o Indy Village, sito quase nas proximidades da sua residência, onde deverá passar a noite.
Nesta sexta-feira o líder da Renamo vai encontrar-se com o Presiente de Moçambique, Armando Guebuza, nas instalações da Presidência onde os dois líderes deverão ratificar o acordo assinado pelas delegações negociais da Renamo e do Governo moçambicano, com vista à cessação das hostilidades militares, que eclodiram no país há cerca de um ano e meio.
Afonso Dhlakama deixou a capital moçambicana no contexto da crise política que se seguiu à derrota da Renamo nas eleições gerais de 2009, instalando-se, primeiro, na cidade de Nampula, e depois em Satungira de onde foi obrigado retirar-se, após um ataque das Forças Governamentais, refugiando-se algures na Serra da Gorongosa.
O líder da Renamo não anunciou se, após o encontro com o Presidente Guebuza, vai fixar residência na cidade de Maputo, assegurando apenas que vai escolher uma das três casas disponíveis, sendo uma em Maputo (sul), a segunda em Nampula (norte) e a terceira em Satunjira (Gorongosa, sul), deixando em aberto a possibilidade de regressar às encostas da serra da Gorongosa.