Por Major Manuel Bernardo Gondola
Foi por volta de 19[33]-19[35] que o termo Negritude inventado por Aimé Césaire 19[13]-20[08] foi introduzido nos circuitos literários europeus e franceses em particular.
Para Aimé Césare Negritude seria o gesto de [assumir] ser negro e ser consciente de uma história, de uma cultura e de uma identidade específica.
A ideia central da filosofia da Negritude assentava na premissa de que, os povos negro-africanos são portadores de uma herança sociocultural carregada de valores e tradições [vetustas] que é preciso revelar, fazer ressurgir e de que aqueles podem e devem tomar consciência e orgulhar-se. Neste âmbito, a revelação da Negritude implicava a recuperação da história africana, dos fenómenos culturais, como a filosofia banta, as artes plásticas, com destaque para a estatuária e a dança negro-africana ao patamar da memória colectiva.
Tratava-se de [reconceptualizar] num termo novo uma ideia que tinha já raízes profundas e que remontava, nas origens, à literatura de protesto africano-americana de finais do século XIX e início do século XX nos Estados Unidos [EU], como o Black to Africa Movimento [Movimento Negro para África] de Marcus Garvey, ou o movimento Black Renascence [Renascimento do Negro] de Langston Hughes, C. McKay, Jean Tooner.
Na Europa, a primeira literatura africanófila sob a égide dos estudantes antilhanos em Paris, especialmente a revista Legitime Defense [Defesa Legitima] e o jornal L’Étudiant Noir [Estudante Negro] com publicação a partir de 19[34], assumir-se-ia como porta-voz das ideias «negritudistas», de denúncia da assimilação europeia nos quais vão colaborar pensadores negros, mestiços e brancos como; Aimé Césaire, Senghor, Léon Damas e J.P.Sartre [filósofo francês] a que se juntará, depois da Segunda
Guerra mundial, a revista Présence Africaine [Presença Africana] como veículo comunicacional daquele movimento que proclamava a unidade cultural africana.
O movimento da Negritude, de que Aimé Césaire e Léopold Sédar Senghor assumem a paternidade histórica, trouxe, a partir de um conceito inicialmente [literário e antropológico], uma nova perspectiva de abordagem à dicotomia «colonizador-colonizado» que emergiria como matriz civilizacional e verdadeira ideologia política, ao defender que, a par de uma «humanidade branca», existe uma «humanidade negra», nenhuma subordinante ou subordinada à outra.
Esta «humanidade negra», comportaria uma dimensão sincretista civilizacional negra de natureza transversal, abarcando as dimensões culturais, económica, social e política. Contudo, se inicialmente o termo cunhado por Aimé Césaire e Léopold Senghor ganhara um significado [mágico] entre alguma intelectualidade europeia e fundamentalmente africana, enquanto elemento [ontológico e messianista] de uma nova filosofia Sartre que pugnava pelo «renascimento africano» e a «reabilitação da África», constituindo-se também como instrumento de combate à assimilação colonial, não tardaria a ser [criticada] por sectores ideológicos mais radicais e [marxistas], também eles messiânicos, empenhados no anticolonialismo revolucionário, como sendo uma mistificação que, sob a forma de «neocolonialismo», ao traduzir-se numa «maneira negra de ser branco», apenas retardaria a descolonização e a independência dos povos africanos. Mais do que uma [crítica] à Negritude, observa-se em seu redor uma clara tentativa de apropriação do movimento, que, em função disto, atravessou várias fases desde o seu aparecimento.
Foi movimento conservador a um tempo e [revolucionário] a outro; foi movimento literário, filosófico, antropológico e ideológico, atravessando diversas correntes políticas, com destaque para o cristianismo progressista e o marxismo. No seu seio cedo se identificariam estas diferentes correntes e percepções do Pan-africanismo intelectual: enquanto Aimé Césaire, de formação [marxista], evidenciava os aspectos culturais, ligando-se por esta via aos movimentos de “descolonização revolucionária”, Léopold Sédar Senghor, um [católico socialista], sublinhava o conteúdo político da
Negritude traduzido num conceito de “descolonização evolutiva”, não escapando por isso ao escrutínio ideológico marxista que o associaria ao neocolonialismo.
Ocorre ainda que é possível detectar conceitos diferenciados entre os mais destacados [marxistas], como Sekou Touré, que oscilou entre o [maoísmo e a ortodoxia soviética], ou entre o [marxismo] de Aimé Césaire e o do seu antigo aluno de liceu, o psiquiatra, ensaísta e o pensador negro revolucionário natural da Martinica Frantz Fanon 19[25]-19[61], tal como Aimé Césaire, natural da Martinica, onde contactou com outras figuras importantes do Pan-africanismo como Edouard Glissant [Martinica], C.L.R. James 19[01]- 198[9] e Eric Eustace Williams 19[11]-19[81] posteriormente primeiro-ministro de Trinidad e Tobago.
O Pan-africanismo de Frantz Fanon rejeitaria o conceito de Negritude e de “descolonização evolutiva”, no seu entender implícito também em Aimé Césaire, defendendo que só a [revolução], enquanto força libertadora do nativo e do seu complexo de inferioridade e desespero, restauraria a sua auto-estima autóctone, constituindo o único meio de acabar com a repressão colonial e o trauma cultural do Terceiro Mundo.
Em Pele Negra, Mascaras Brancas de 19[52], o seu primeiro livro publicado, Frantz Fanon, partindo de uma grelha de análise [marxista-leninista], analisa o impacto do colonialismo e seus efeitos deformantes nas sociedades colonizadas, argumentando que o colonialismo branco impôs às suas vítimas negras e colonizadas uma existência falsa e degradante por, através da [assimilação], impor a conformidade do colonizado aos valores distorcidos do colonizador.
A caminhada do Terceiro Mundo observa Frantz Fanon, obedece também ao esquema da luta de classes: ele seria, a História orientada para a libertação e para o progresso. Frantz Fanon segue esta linha de pensamento até à morte, em 19[61], com sua obra Os Condenados da Terra 19[61], com prefácio de J.P. Sartre, baseado na sua experiência na Argélia durante a guerra da independência, e que seria considerado um dos [documentos] centrais do movimento para a revolução negra.
Alimentando-se de anti-europeísmo, dá enfoque maior a uma perspectiva que vê no Terceiro Mundo uma fonte de renovação, um regresso à pureza original, um meio de [romper] com o que denuncia, em Os Condenados da Terra, ser a paragem, desde há séculos sob comando europeu, da progressão entre os homens, submetidos, no seu entender, aos desígnios e à glória de uma Europa que, em nome de uma pretensa “aventura espiritual”, abafava toda a humanidade conforme Frantz Fanon.
Esta ideia colheria [adeptos] noutros pensadores como Sartre, ou em individualidades comprometidas com o Terceiro Mundo, como o suíço Jean Ziegler autor do livro Sociologias da Nova África 19[64].
Fundamentalmente, o conceito de Negritude contrapunha ao «etnocentrismo europeu» a ideia do «relativismo cultural», embora alguns autores do Pan-africanismo intelectual radicalizassem a abordagem defendendo a ideia de uma anterioridade das civilizações negras, berço da humanidade, bem como o conceito científico de «egiptologia afrocentrada», o mesmo é dizer, postulando a ideia de que a civilização-berço do Egipto Antigo mais não era que uma civilização negro-africana Cheikh Anta Diop. Mas, na sua vertente moderada, o movimento da Negritude defendia um posicionamento [anti-racista] das elites cultas de origem africana a quem caberia alimentar a luta contra a colonização europeia num quadro ideológico cultural pan-africanista, situando os novos países africanos no contexto do terceiro-mundismo, mas que não deveria excluir a [perspectiva multirracial].
O aparecimento da revista Présence Africaine 19[47] constituiu nesta matéria um marco, ao declarar-se aberta à colaboração multirracial de brancos, mestiços e negros, posição que se traduziria na revitalização do Pan-africanismo intelectual em que tomariam parte intelectuais luso-africanos de expressão portuguesa.
Por outro lado, o fenómeno da Negritude atravessou outras sociedades e países europeus com tradição e passado imperial e colonial, como Espanha, Itália, Grã- Bretanha, Brasil e Portugal, onde se destacaram o santomense Francisco Tenreiro, os angolanos Mário Pinto de Andrade e Agostinho Neto e os moçambicanos
Marcelino dos Santos e Castro Soromenho este último com maior ligação aos sincretismos culturais de Angola, onde viveu.
Francisco Tenreiro terá sido o [precursor] do movimento da Negritude em Portugal 19[42] com o seu livro de poesia Ilha do Nome Santo. Em 19[53], com Mário Pinto de Andrade, publica uma colectânea de poesias representativas da Negritude Primeiro Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa, que Mário Pinto de Andrade ampliaria em Paris 19[58] com o título de Antologia da Poesia Negra de Expressão portuguesa.
Outro autor da Negritude de expressão portuguesa é Alfredo Margarido, nascido em Portugal mas emigrado para São Tomé e Príncipe e posteriormente para Angola, que cedo captou a [hostilidade] do Governo-geral de Angola, que determinou a sua [expulsão], acabando por se fixar em Paris, onde se integraria nos movimentos de extrema-esquerda dedicando-se aos problemas africanos e da sociologia da literatura. A ele se deve o ensaio Negritude e Humanismo 19[64] publicado, no ano da sua [expulsão], em Portugal pela Casa dos Estudantes do Império, alfobre de futuros.
Manuel Bernardo Gondola
Maputo, 02 de Junho 2019