"Deus criou as pessoas para amarmos e as coisas para usarmos, porque então amamos as coisas e usamos as pessoas?"



quinta-feira, 4 de outubro de 2012

“Os dois anos e meio das negociações foram muito difíceis para mim”

Afonso Dhlakama
Afonso Dhlakama diz que o balanço dos 20 anos de paz é negativo.
A partir da província da Zambézia, onde se encontra de visita, o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, faz uma análise do Acordo Geral de Paz e reitera que à guerra não volta mais.
Como é que foi o período de negociação até chegar ao acordo de paz?
Recordo-me que foram dois anos e meio de negociações em Roma e aquilo foi muito difícil. Difícil porque, na altura, o governo moçambicano não queria reconhecer a Renamo, queria que a Renamo depusesse as armas e que Dhlakama e seus guerrilheiros fossem reintegrados, sem negociarmos uma agenda política. Em face disso, obrigámos a Frelimo para retornarmos às negociações políticas, um processo que levou dois anos e meio até à criação dos protocolos. Cada protocolo definiu a pretensão de cada uma das partes sobre os destinos de Moçambique. Nós, a Renamo, queríamos democracia multipartidária e que, depois, tivéssemos eleições livres e transparentes, justiça, direitos humanos, economia do mercado, liberdade de circulação e religiosa, entre outras. foi duro, mas valeu a pena a demora das negociações - foram dois anos e meio -, pois, por isso, até hoje temos esta paz.
Dois anos e meio de negociação da paz, porquê? Alguma coisa falhou neste processo?
Não. Em termos de negociação, nada falhou. foram dois anos e meio porque nós exigíamos que as negociações fossem sérias. Não seria bom que as negociações da paz em Moçambique fossem como acontece com os outros países, onde negociam para satisfazer a vontade de mediadores, cessam-fogo hoje e, volvidos dois dias, regressam às matas. Ora, nós queríamos que a Frelimo aceitasse o fim da guerra numa condição de entrada de multipartidarismo em Moçambique. Também queríamos que a Frelimo aceitasse a criação de um exército único, apartidário, técnico com parte dos guerrilheiros da Renamo e as tropas do governo. Queríamos que se acabasse com guia de marcha, aldeias comunais, a lei de pena de morte e tudo aquilo que fosse política de comunismo. A Frelimo acabou por aceitar porque, quando tentasse fazer manobras no interior, mandava a minha ofensiva militar, daí que ficava com medo e acelerava o processo.
Volvidos 20 anos, que balanço faz da paz em Moçambique?
 É negativo. Foram 20 anos de sacrifício e da pior vida do que a que vivemos no período da guerra dos 16 anos. Foram 16 anos de luta com armas e 20 anos de calar das armas. Entretanto, em termos de perseguição, sofrimento e escravidão, os 20 anos foram duros. Já imaginou alguém como Dhlakama a assinar acordo com Chissano para, depois, ser excluído de tudo e ser atacado fisicamente, incluindo os seus seguranças, pelas forças policiais a mando da Frelimo. Já fomos atacados em Marínguè no ano passado, e, no dia oito de Março, em Nampula. Vou contar-lhe um episódio: durante a campanha para as eleições de 2009,  quando estive em Mandimba, no Niassa, entrei num restaurante e o proprietário veio até a mim e retirou-me do seu espaço, alegando ter instruções para o efeito. Será que estamos em paz? 
Fala-se de nova ordem política na Renamo, porquê?
Eu não gostaria de assustar as pessoas, porque jurei que jamais haverá guerra iniciada pela Renamo. nós vamos fazer manifestação pacífica como forma de pressionar a Frelimo. O limite para o efeito é até ao dia 30 de Outubro. Se a Frelimo aceitar negociação para assinar acordos que ponham termo os abusos, de facto, tudo será tranquilo. Mas se até ao dia 30 não houver nenhuma indicação positiva no seio da Frelimo, vamos, efectivamente, manifestar, fechar todas as linhas-férreas, aeroportos, estradas e tudo, e ninguém pode tentar intervir. Se mandarem a Força da Intervenção rápida, vou ordenar a segurança da Renamo para esmagar todos. Não sou belicista, mas de paz. A Frelimo fala da reconciliação, unidade nacional e boa governação todos os dias, mas o que faz é um autêntico terrorismo (...).
O discurso de manifestação não é novo...
Comecei com este discurso logo após de resultados eleitorais de 2009, antes do Egipto e a Líbia, que copiaram o meu discurso. Eu cheguei à conclusão de que África não precisa de pegar em armas para matar, é só manifestar e fechar todos os pontos estratégicos. Se assim procedermos, o governo será obrigado a resolver os problemas. É por isso que já formei seis homens para negociarem com os ministros da Frelimo.
Sente que os acordos de Roma não estão a ser cumpridos?
Pelo amor de Deus, não há nenhuma coisa que está a ser cumprida.... 
Algumas correntes contestam o facto de o líder da Renamo ter homens armados, é legal a sua força?
São estas correntes que não percebem nada. sinto muito quando vejo figuras académicas a falar disso. O acordo de paz diz que a Renamo deve ter a sua segurança, que é composta por guerrilheiros que combateram durante a guerra. está escrito que o desaparecimento desta segurança vai depender do cumprimento, por parte de governo, que tinha como obrigação despartidarizar a polícia, de modo a que a Renamo e outros partidos emergentes se sentissem à vontade. mas a Frelimo, até hoje, não faz nada. Eu estou disposto a entregar a minha força para integrar uma polícia apartidária.
Sente que há falta de compromisso nos acordos de Roma?
Sim, porque a Frelimo não está cumprir nada daquilo que assinou. Se eu quisesse vingar-me já em 1994, teríamos acabado com a paz, o que não seria bom para o país, porque a guerra não faz bem a ninguém. E se eu responder, todos os investimentos vão fugir e eu não quero fazer isso.
Que tem a dizer sobre as recentes conversações que manteve com o chefe do estado, Armando Guebuza, em Nampula?
Não surtiram efeitos e espero que o desfecho seja urgente.
Para terminar, o líder da Renamo é pela paz? 
Sim, sou pela paz e não pretendo voltar a pegar em armas.

“Durante dois anos em Roma só almocei uma vez com Guebuza”

 
Um olhar sobre o passado com o negociador Raul Domingos.
O antigo chefe de relações exteriores da Renamo e chefe da delegação nas negociações de Roma diz que havia poucas oportunidades para “um social” com a delegação do Governo. Só houve uma ocasião, e essa, por sua iniciativa.
Qual é a sua opinião sobre o estágio da paz 20 anos depois?
20 anos depois, a paz que temos é uma paz do calar das armas. É aquilo a que chamo paz militar. É o que estamos a viver ao longo destes 20 anos. Tenho receio de dizer que Moçambique está efectivamente em paz. Prefiro dizer que estamos apenas num tempo depois do calar das armas. Estamos na possibilidade de uma convulsão social ou política, porque não estão a ser respeitados muitos aspectos, quer do Acordo de Paz, quer da constituição. Basta olhar para o que acontece em cada eleição quanto ao nível de participação dos eleitores. Perguntamo-nos: por que em 1994 as pessoas se interessaram por eleições, e agora não? Estamos a falar de um partido dominante que, do ponto de vista legal, o é porque tem o Parlamento, o Executivo, tem nomeado quase todos os membros do judiciário, mas esse partido, do ponto de vista de legitimidade, é eleito pela minoria. 80% da população não vai votar e não sabemos por que esta população não está a votar. Isto significa que, um dia destes, podemos acordar com um 5 de Fevereiro ou 1 e 2 de Setembro.
É mais difícil manter a paz do que fazer a guerra...
A paz, tal como o poder, faz-se com o simbolismo. É por isso que vemos pessoas vestidas de branco, soltam pombos nas celebrações. No caso da oposição e do partido no poder, por que nunca os vemos juntos nas praças no dia 4 de Outubro? Que mensagem os mentores da paz estão a lançar para a sociedade? O simbolismo desta paz militar é a constituição das FADM. O simbolismo que existe é ao nível de discursos, mas a materialização destes discursos ainda é uma miragem. O meu apelo é que, ao celebrarmos os 20 anos da Paz, os jovens peguem nesses discursos e os tornem materializáveis.
Levando-nos de volta a Roma,  para o período das negociações, como é que era a convivência entre as delegações que se encontravam nas negociações?
Em Roma não tivemos muitas ocasiões para convívio, mas há um aspecto que tentámos cultivar, que era o informal. Para além do momento formal com os mediadores, observadores e a imprensa, nós desenvolvemos um momento informal, no qual trocávamos ideias e opiniões longe dos  media e da imprensa. Eu próprio e o chefe da delegação do Governo promovíamos debates sobre aquelas coisas que não havia consensos, para que, de uma forma informal, sem compromissos, sem pressão da imprensa e de observadores, encontrássemos soluções. e por vezes encontrávamos. Chamávamos a isto o cultivar de uma confiança mútua.
Vamos falar de um outro informal... Havia momentos em que as duas delegações privavam, saíam juntas a um café, um jardim ou mesmo conversar e confraternizar?
Para ser franco, eu recordo-me apenas de um almoço entre os dois chefes de delegações. Foi uma iniciativa minha que os mediadores consideraram-na muito ousada. Garanti que o senhor Armando Guebuza havia de aceitar, e, por acaso, aceitou. Estávamos acompanhados pelos membros das nossas delegações. eles ficaram numa mesa e eu e o chefe da delegação da Frelimo estivemos numa outra. Era esta uma forma de procurarmos aproximação.
Onde é que aconteceu esta conversa informal?
Lá na Comunidade Santo Egídio havia um espaço que estava consagrado para isso.
Há quem diga que a maioria das decisões que corporizaram o Acordo Geral de Paz de 4 de Outubro de 1992 foi conseguida nos corredores e não na mesa das negociações como tal. Confirma a informação?
 
Dom Jaime, arcebispo emérito da Beira, faz-nos voltar ao passado e desvenda os bastidores da paz no país.
“O País” traz, nesta edição, uma entrevista com Dom Jaime,  arcebispo emérito da Arquidiocese da Beira. Dom Jaime foi um dos principais negociadores da paz de que desfrutamos há 20 anos .
O que teria levado a igreja católica a envolver-se na procura de paz para Moçambique?
A Conferência Episcopal de Moçambique entendeu que a resistência liderada pela Renamo incitava os moçambicanos à revolta, expandido por todo o país a guerra civil ou de desestabilização, como queira, isto a partir do início da década 80. Esta resistência contava com o apoio de forças internas, neste caso, os próprios moçambicanos, e externas. Estou a referir-me àquele grupo de países ou pessoas que pretendiam criar a chamada África branca, ou seja, os que não consentiam ligação com países comunistas.
Podemos voltar à intervenção da igreja católica no processo de paz em Moçambique?
A guerra civil foi ganhando consistência, expandia-se pelo país todo e a nossa sociedade estava a ser destruída. A segurança dos cidadãos tornou-se problema tanto nas cidades assim como nas zonas rurais. A unidade nacional era uma cantiga, e o governo da Frelimo tinha perdido  o controlo da soberania nacional, pois, aos poucos, a Renamo ia controlando um vasto território nacional, onde o governo revolucionário não tinha nenhum poder. Era um governo descontrolado, com uma soberania dividida e com matanças e choros por todos os lados. Para a nossa felicidade, a Frelimo reconcilia-se com as instituições religiosas em 1982. Foi um grande abertura para os caminhos da paz.
Mas onde e quando entra a igreja católica no processo de paz?
Bem, tanto a Igreja Católica como o Conselho Cristão de Moçambique defendiam junto do governo a política de reconciliação para com a resistência. Dado o nosso insucesso, a Conferência Episcopal de Moçambique criou, em 1987, duas comissões. Uma tinha a responsabilidade de continuar a escrever cartas pastorais, que era a forma mais  comum para nos comunicarmos com o resto dos moçambicanos, e a outra comissão teve a missão de procurar a Renamo, para lhe dizer que a solução das suas apreensões não seria com recurso a tiros, mas sim com o diálogo. Eu, que era o presidente da comissão de justiça e paz, passei a chefiar a segunda comissão, e, portanto, fiquei com a responsabilidades de procurar a Renamo, juntamente com o então cardeal da cidade de Maputo, Dom Alexandre.
Como localizou a Renamo, tendo em conta que estava nas matas?
  Não foi fácil. Decidimos começar por procurar os seus representantes fora do país. percorremos Tanzania, Malawi, Quénia, Portugal, Itália e até Estados unidos da América durante um ano, sem sucesso. Importa referir que, numa das minhas viagens à busca do representante da Renamo em Portugal, que  na altura era o já falecido Ivo Fernandes, fui abordado por um político muito desenrascado, o Máximo Dias, que me convidou para um restaurante onde a iluminação era ténue. Acredito que ele estava com medo. Acabei aceitando o convite, e ele disse que estava a representar Ivo Fernandes. Por desconfiança, não abordei a minha preocupação. Limitámo-nos a tomar um chazinho e abordámos a questão da Renamo de forma muito superficial. Na mesma altura, Dom Alexandre estava nos estados Unidos da América à procura de Artur Vilanculos, que era representante da Renamo, mas sem sucesso. Artur Vilanculos orientou-lhe a procurar o governo do Quénia. Já no Quénia, Dom Alexandre foi orientado pelo executivo do então presidente Arap Moi a retornar àquele país com mais pessoas, se efectivamente estava interessado em encontrar -se com a Renamo.
Como é que vai a Gorongosa?
Em Novembro de 1988, saí da Beira rumo a Lesotho. De Lesotho parti numa avioneta com destino desconhecido. Saímos às 15h00 e só chegámos às 18h00 ao destino. Já no ar, um jovem piloto perguntou-se se sabia qual era o meu destino. Apenas afirmei que ia ao encontro de Afonso Dhlakama. Ele pôs-se a rir e, sinceramente, nunca entendi. Aterrámos numa pista deserta e, no fundo da mesma, estava um outro avião relativamente maior. O meu jovem piloto disse: “Senhor Arcebispo, entre naquele avião”. Entrei, e dentro do avião havia apenas um pequeno espaço para eu me sentar. Estava tudo ocupado com mantas, bebidas, alimentos de diversa natureza. Cerca das 19h00, saímos na mesma escuridão.
Qual era o destino?
Apenas disseram-me que íamos a Gorongosa. Durante 30 minutos, o avião sobrevoou o mar e, de repente, fez um desvio. Lembro-me que foi num dia de lua cheia, e, como o avião estava a voar à baixa altitude, notei que, gradualmente, estávamos a entrar em florestas cada vez mais densas. Aterrámos numa pista onde vários guerrilheiros empunhavam tochas em fila nas extremidades da pista a fim de facilitar a aterragem do avião. Minutos depois, ouvi o roncar de uma moto de grande cilindragem. Era Afonso Dhlakama. Todo sorridente, jovem na altura, esticou a sua mão e disse: “Boa noite senhor Bispo. Respondi, todo trémulo. Virou-me as costas e vi-o a dialogar com os seus guerrilheiros. Não entendi nada, nem me preocupei. Retornou ao meu encontro e ordenou-me que fosse com ele na moto, tendo de seguida me pedido para lhe segurar bem. Fi-lo, pois não estava interessado em cair. Arrancámos e seguimos um caminho em zigue-zague no meio de muitas árvores. Cerca de 10 minutos depois, chegámos a um local onde havia muito mais guerrilheiros e várias fogueiras. Em redor, diversas infra-estruturas destruídas e equipamento bélico destruído. Dhlakama levou-me a um alpendre feito de capim e barro, também com uma fogueira no meio. Não havia energia.
Como o encarou?
Eu estava aflito, não sabia como iniciar a conversa. Não sabia como ele reagiria à nossa proposta de diálogo, de negociações à busca de paz. Para a minha felicidade, foi ele mesmo que iniciou a conversa para o lado que eu pretendia. Perguntou-me se eu tinha notado a destruição em redor, e respondi que sim. Perguntou-me se a luz eléctrica não me fazia falta, também respondi sim. Depois disse-me que não tinha comida, muito menos um café para me servir, porque não havia. Dhlakama disse: “Estamos a sofrer e cansados desta guerra. Queremos dialogar com a Frelimo e pedimos a mediação da igreja”. Respirei de alívio. Estava dado o primeiro e importantíssimo passo rumo à paz em Moçambique. Discutimos as condições, que passavam necessariamente pela escolha do local das conversações e as pessoas que estariam envolvidas no processo. Ficou acordado que o encontro seguinte seria em Nairobi, em Fevereiro de 1989. Parti de regresso a Beira, via África de Sul, quando eram cerca de duas horas de madrugada.
No encontro de Nairobi, Dhlakama apareceu?
Não, mas os seus representantes estavam lá. Importa referir que, depois do primeiro contacto com Dhlakama, o presidente Alberto Chissano dispensou a Igreja Católica no processo e envolveu de forma directa os seus homólogos do Zimbabwe e do Quénia. Sei que, no encontro de Fevereiro, nada de concreto foi acordado. Foi agendada uma outra reunião para Agosto do mesmo ano. Também não trouxe bons resultados. Robert Mugabe chateou-se, porque estava a gastar muito dinheiro, sem sucesso, e pediu ao presidente Chissano para voltar a convidar a igreja católica para estar no processo. Retornámos, e mesmo sem ser diplomatas iniciámos uma séria de diplomacia no sentido de convencer a Renamo a avançar com as negociações sem desconfiar. Mas acontece que o presidente Chissano estava a mostrar resistência para o início das negociações.
Como conseguiram convencer o presidente Chissano?
Usámos diplomacia que ele não entendeu. Fui à Itália e pedi ao Vaticano, assim como ao governo italiano, para aproximarem ao então presidente norte -americano Jorge Bush(pai), no sentido de apelar ao nosso presidente a dialogar com a oposição. Como os EUA são uma potência mundial, acreditámos que o apelo de Bush seria uma especial ordem para Chissano. Funcionou. O presidente Chissano anunciou, a partir de Washington, em finais de 1989, que estava aberto ao diálogo.
E como a Renamo reagiu?
De forma satisfatória, mas levanta-se, então, um outro problema. O local das negociações. A Frelimo propôs  Malawi; a Renamo recusou, alegando que a SNASP circulava à vontade naquele país, o que seria um risco para ela. A Renamo propôs Portugal; a Frelimo recusou, alegando que havia muitos descontentes que fugiram de Moçambique e que as negociações seriam minadas. A igreja voltou a entrar em cena. Fomos pedir socorro ao Vaticano e foi identificada a Comunidade de Santo Egídio.
Constou-nos que Afonso Dhlakama esteve na Comunidade de Santo Egídio, antes do inicio  das negociações?
Esteve, realmente, em Fevereiro de 1990. E agora recordo-me de um episódio que criou muito embaraço. Afonso Dhlakama não tinha passaporte. Foi muito difícil fazê-lo viajar, mas a comunidade de Santo Egídio usou as suas influências junto do governo italiano e conseguiu-se um documento para ele viajar dentro da Itália e noutros pontos da Europa.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

“As pessoas não falam à vontade na Frelimo e na sociedade”

 
Jorge Rebelo quebrou os consensos no congresso de Pemba.
- “No passado,  a Frelimo não era assim”, Jorge Rebelo
- “Nós crescemos sem amarguras, sem convencimento de que só uns é que sabem. Eu acho que esta abertura, esta humildade de ouvir dos outros é que são as marcas que fizeram esta nossa organização”, Jorge Rebelo.
Ao segundo dia, Jorge Rebelo afirmou-se como a voz dissonante do X congresso da Frelimo, que decorre em Pemba, quebrando o ambiente de unanimidades, que vinha desde o primeiro dia de trabalhos. Rebelo foi ao pódio reclamar maior abertura para os membros poderem apresentar as suas opiniões, “que, quando divergem das opiniões oficiais,  ou são proibidas ou são reprimidas, no momento em que as pessoas querem falar.”
Jorge Rebelo vincou que “sem diálogo, não vamos longe. Temos que permitir às pessoas falarem sem qualquer medo de represálias.” Neste momento, ajuntou, “isso não acontece no nosso partido e na sociedade em geral.”
Rebelo disse que  a intimidação manifesta-se de forma mais grave na comunicação social, segundo suas palavras,  amordaçada por agentes do Estado.
Para o ideólogo da Frelimo, o  perigo disso é os chefes não terem a percepção do que os membros pensam e querem e, consequentemente, não poderem tomar as medidas necessárias para corrigir os seus erros. Rebelo entende que ninguém é perfeito. “Mesmo  os chefes erram. Por isso, é preciso que saibam o que a população pensa.”
Já fora da sessão, perguntámos-lhe se “foi sempre assim na Frelimo”. Jorge Rebelo respondeu que “no passado, não era assim. Espero que este congresso encontre um caminho para poder haver abertura. Havendo abertura, este partido seria muito mais forte.”
Na sua intervenção na sessão do congresso, Jorge Rebelo abordou igualmente a unidade nacional. Disse que era uma questão importante para o país, “mas, muitas vezes, a unidade nacional é apenas um slogan utilizado nos discursos.  Não se indica qual o conteúdo dessa unidade nacional.”
Acrescentou que, “ultimamente, fico preocupado quando oiço certos pronunciamentos de dirigentes altos da Frelimo, que querem dividir-nos, que dizem haver moçambicanos genuínos e não genuínos. Eu próprio já não sei se sou genuíno. Será pela cor? O Manuel Tomé e a Graça (Machel) são bem mais claros que eu”, brincou, para logo a seguir retomar o ar sério: “Esta é uma questão séria”.
ÓSCAR MONTEIRO ASSINA POR BAIXO
Óscar Monteiro, outro histórico da Frelimo, corrobora as palavras de Jorge Rebelo. Entrevistado pelo nosso jornal à margem do congresso, o antigo ministro de Samora Machel entende que, numa organização, há sempre a tendência de as pessoas pensarem que todos os assuntos já estão resolvidos.  “O partido Frelimo cresceu através do debate e da incorporação permanente de novos conhecimentos. Isso pressupõe irmos buscar as pessoas a cada momento, através da discussão, o que elas têm para dar para enriquecer o pensamento colectivo.”

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Mulémbwè diz-se disponível para suceder a Guebuza


Tabu da sucessão desvenda-se pouco a pouco.
  • “Espero que este congresso seja capaz de pôr, à frente da sua máquina, pessoas que estejam comprometidas com a causa do povo, pessoas que vão servir este povo, pessoas que ponham os seus interesses pessoais não acima dos interesses populares.” Eduardo Mulémbwè;
  • “Eu julgo, modéstia à parte, que devo ser conhecedor, embora modesto, de como as coisas acontecem.” Eduardo Mulémbwè;
  •  “Até pode ser que seja julgado capaz, mas os meus companheiros acharem que não é oportuno.” Eduardo Mulémbwè
O há muito esperado X Congresso da Frelimo arrancou, ontem, em Pemba, mas a revelação mais importante veio dos corredores do evento. Em entrevista ao “O País”, Eduardo Mulémbwè, membro da Comissão Política cessante, abriu a porta à candidatura para a sucessão de Armando Guebuza. Diz que tem obra feita, é “conhecedor das coisas” e se os camaradas acharem que é oportuno, não dirá não. Enquanto isso, Luísa Diogo joga à defesa. Diz que “não faz sentido” falar-se na sua candidatura.
Enquanto no enorme pavilhão de eventos, os cerca de dois mil delegados e pouco mais de mil convidados começavam o congresso em ambiente de verdadeira festa, sem melindres e com unanimidades nas principais matérias do primeiro dia, designadamente, a eleição dos membros dos órgãos do congresso e a apreciação ao relatório do Comité Central, do lado de fora, vinham as mais ansiadas novidades do evento.
Entrevistado ao intervalo da sessão de ontem, Eduardo Mulémbwè disse que, “para além de discutirmos as grandes questões relacionadas com o nosso povo, temos de estar à altura de sermos capazes de escolher dirigentes, quadros, que estejam à altura deste grande desafio. Espero que este congresso seja capaz de pôr, à frente da sua máquina, pessoas que estejam comprometidas com a causa do povo, pessoas que vão servir este povo, pessoas que ponham os seus interesses pessoais não acima dos interesses populares.”
Eduardo Mulémbwè referiu que a sua expectativa à volta do congresso é enorme.
É visto como presidenciável. Como é que reage a isso?
Eu disse-vos sempre, eu tive o privilégio de participar na Frelimo já de há algum tempo para cá. Eu julgo, modéstia à parte, que devo ser conhecedor, embora modesto, de como as coisas acontecem. Essas percepções são ideias ou de uma pessoa ou de algumas pessoas. Mas têm que estar sob regra, têm de surgir de propostas dentro do partido.
Mulémbwè acrescentou ainda que “tudo o que pude tentar fazer ao longo da minha vida não foi porque me achei que era capaz de fazer. Até pode, mas os meus companheiros podem não julgar que seja capaz. Até pode ser que seja julgado capaz, mas os meus companheiros acharem que não é oportuno.”
Mais taxativo, Mulémbwè disse que, “quando me perguntam o que é que acho (da candidatura à liderança do partido), eu deixo à liberdade das pessoas que digam o que pensam sobre mim.”
Insistimos: e se o partido disser para avançar?
 “Eu não ponho a carroça à frente dos bois (...)”, respondeu, fugindo.
Leia mais na edição impressa do «Jornal O País»

Bakhir transferido para quartel de Moamba

24 de Setembro de 2012, 11:52

O empresário Mohamed Bakhir Ayoob foi transferido no passado fim-de-semana das celas da Força de Intervenção Rápida, onde esteve encarcerado, para o quartel da FIR em Moamba, na província de Maputo, avançou esta segunda-feira, o Canal Moz.
Fontes policiais garantiram ao Canalmoz que Bakhir esteve a tentar  comunicar com Arlindo Timane, outro detido pela Polícia, acusado de ser um dos operacionais dos raptos.
Bakhir, acusado de ser o mandante dos sequestros e assassinatos de empresários mulçumanos em Maputo foi detido na passada sexta-feira numa operação de forças especiais da Polícia da República de Moçambique.
Ainda segundo fontes policiais, Bakhir já começou a ser interrogado pela FIR e teria confessado que possui(a) dívidas avultadas com o empresário Ahmad Jassat, que foi morto há meses vítima de baleamentos, na Avenida 24 de Julho, em Maputo.  Segundo o Canal Moz, Bakhir teria confessado ainda deter dívidas com os donos da “Mundo Câmbios” e “Africâmbios”, dois empresários que também sofreram tentativas de raptos nos últimos meses.
Ao tudo, Bakhir teria confessado à FIR que tem dívidas acima de 17 milhões de dólares, conforme indicado ao Canalmoz de fontes ligadas à Polícia.
Notificados para depor
O Canalmoz explica que apesar de a prisão ainda não estar legalizada, há cidadãos a serem notificados para serem ouvidos pela FIR. Foram apurados os nomes de Selvanir Hanifi e Leyla Brito, senhoras das relações de Bakhir que teriam recebido duas viaturas de luxo avaliadas quase 180 mil dólares, como presente, após o rapto de uma senhora ligada aos donos da “Delta Trading”.
Quem é Bakhir
O empresário Mohamed Bakhir é proprietário de muitas lojas na cidade de Maputo, entre as quais “Bakhir Cel Shop”, “Bakhir Game Shop”, “Bakhir Auto Style”. Este empresário é filho da dona da “Electromundo”, uma famosa loja localizada na avenida Vlademir Lenine, na cidade de Maputo. O tio de Mohamed Bakhir foi morto a tiro, na década de 1990, na cidade de Maputo e a sua mã passou a assumir os negócios familiares.
Bakhir é casado com Zeinab Bachir, filha do empresário Momade Bachir Sulemane (MBS), o dono “Maputo Shopping Center”.

De que é acusado Bakhir

Conforme o Canalmoz apurou de fontes policiais, Bakhir é acusado de vários raptos e assassinatos de empresários moçambicanos, muçulmanos. De trinta ano de idade, o empresário Bakhir é investigado no caso do assassinato do empresário Ahmad Jassat, dono da “Expresso Câmbios”, que foi baleado há meses na cidade de Maputo, na Avenida 24 de Julho, tendo falecido na vizinha África do Sul, numa unidade hospitalar. Bakhir é acusado ainda de assassinato do empresário Momade Ayob, do grupo “Ayob Comercial”, que também foi morto numa tarde de sexta-feira, por volta das 13 horas, à frente da mesquita E-Jilani, na rua Rainha Nomatuku em Maputo.

Os raptos

Pesam ainda contra Bakhir acusações de ser mandante de alguns raptos consumados e fracassados, de empresários muçulmanos e ismaelitas na capital. É o caso do rapto fracassado que ocorreu em Novembro de 2011, onde tentou raptar o proprietário da “Mundo de Câmbios”, de nome Kasif, na zona da Belita. Também o caso da tentativa falhada de rapto do proprietário da “Africâmbios”, mas que foi confundido com o seu empregado. É ainda indiciado de rapto de uma senhora ismaelita, familiar de donos da “Delta Trading”. Ainda é acusado no caso de rapto de Ibrahimo “Machava”, proprietário dos “Armazéns Machava”. Também é acusado no caso de rapto do  proprietário dos “Armazéns Favorita”, de nome  Salim, e no rapto de proprietário da SOMOFER, de nome Yaqub.
A Polícia estava ao encalço de Bakhir há alguns meses, mas esta sexta-feira foi consumada a sua detenção, depois de existir o mandato de busca na sua residência.
Perda de mais de três milhões de dólares em casinos sul-africanos
A Polícia soube também junto de fontes da polícia sul-africana que o genro de Bakhir teria perdido em casinos sul-africanos cerca de 24 milhões de rands, equivalente a três milhões de dólares.
Máximo Dias convidado para advogado do genro de Bakhir
O advogado e político Máximo Dias foi convidado para a defesa de Bakhir.
Contactado pelo Canalmoz, Máximo Dias disse que apenas foi chamado para acompanhar o empresário Bakhir nos depoimentos à Polícia, negando que tenha sido constituído advogado de Bakhir.
Quanto à detenção de Bakhir, Máximo Dias disse no contacto telefónico com o Canalmoz que Bakhir “foi intimado para depor” e que “não sabe se será detido ou não”, entretanto Bakhir acabou por ficar detido.
Milhões para libertar Bakhir
Entretanto, fontes policiais alegam que está em curso uma movimentação de advogados influentes da praça, para estes pagarem caução em elevadas somas de dinheiro a fim de garantir a soltura do genro de Bakhir, para responder o caso em liberdade, mediante o termo de identidade e residência.
De acordo com o Canalmoz, o dinheiro em movimento, não será apenas para pagar a caução. Fontes policiais terão referido que o juiz da instrução criminal que deve legalizar ou não a prisão de Bakhir está a ser pressionada para libertar Bakhir. Pessoas próximas do empresário Bakhir têm a certeza que o mesmo será liberto entre a próxima quarta-feira e quinta-feira.

domingo, 16 de setembro de 2012

Maomé/Filme: Ataque a consulado vinga morte de "número 2" da Al-Qaida - rede extremista

16 de Setembro de 2012, 10:07

O ataque contra o consulado norte-americano em Benghazi, no leste da Líbia, "vinga" a morte do "número dois" da Al-Qaida, Abu Yahya al-Libi, afirmou o ramo iemenita da rede extremista, avança a Inforpress. “A morte do xeque Abu Yahya al-Libi (…) estimulou o entusiasmo e a determinação dos filhos de Omar al-Mokhtar [líder da resistência líbia contra a colonização italiana] a vingarem-se dos que ridicularizaram e atacaram o nosso profeta”, indica a Al-Qaida na Península Arábica (AQPA) num comunicado citado pelo centro norte-americano de vigilância dos "sites" islâmicos SITE..
A AQPA não reivindica diretamente em nome da Al-Qaida o ataque ao consulado que coincidiu com o aniversário dos atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos e que causou a morte de quatro norte-americanos, incluindo o embaixador Chris Stevens.
Abu Yahya al-Libi foi morto no início de junho no Paquistão num ataque de um avião não tripulado (“drone”) norte-americano. Na véspera do 11.º aniversário do 11 de setembro, o líder da Al-Qaida, Ayman Al-Zawahiri, divulgou um vídeo confirmando a morte do seu “braço direito”.
O consulado em Benghazi foi atacado durante um protesto contra um filme realizado nos Estados Unidos que retrata a vida do profeta Maomé e é considerado insultuoso para o Islão.
“O levantamento do nosso povo na Líbia, Egito e Iémen contra a América e as suas embaixadas é um sinal para indicar aos Estados Unidos que a sua guerra não é dirigida contra grupos e organizações (…) mas contra a nação islâmica que se levantou contra a injustiça, a fraqueza…”, refere o comunicado da AQPA.
O presidente da Assembleia Nacional líbia, Mohamed al-Megaryef, afirmou hoje, numa entrevista à agência France Presse, que elementos estrangeiros estiveram implicados no ataque ao consulado norte-americano em Benghazi e que a ação foi planificada e meticulosamente executada.