11/08/2019
Por Major Manuel Bernardo Gondola
Fazer desaparecer a Guerra da vida da sociedade e conseguir uma Paz geral [definitiva] é um sonho secular da humanidade. As ideias da Paz universal foram expressas pelos grandes pensadores [progressistas] ainda na Antiguidade.
Aristóteles, filósofo da Grécia antiga, na sua obra Política, escrevia sobre a [aspiração] natural dos homens à vida conjunta e à comunidade política. No período do feudalismo, os cientistas e líderes sociais [progressista] também intervieram contra as Guerras feudais que causavam prejuízos e desgraças às populações inteiras.
O problema de Paz entre os povos propagava-se persistentemente na época da Renascença. Erasmo de Roterdão, [destacado] filósofo humanista daquela época, escreveu os tratados especiais «A Guerra é Suave para Quem não a Conheceu [1515] e As Queixas do Mundo» [1517]. Nestes tratados ele afirmava que a Guerra é um oceano sem fundo que [devorava] indistintamente tudo, é a causa dos males e desgraças, por ela perece tudo o que é florescente, belo, sadio e útil. Ele escreveu: «A maioria do povo odeia a guerra e deseja a paz. Só uns poucos, cujo bem-estar infame depende das desgraças do povo, desejam a guerra». Erasmo apelou: «Que se unam todos os homens contra a guerra. Que todos os homens levantem as suas vozes contra ela».
Este apelo à Paz foi apoiado por sebastião Frank [1500-1543], representante dos círculos de esquerda do movimento reformista da Alemanha. Na sua obra «O livro Combativo da Paz» ele condena decidida e energicamente a Guerra como um fenómeno bestial, desumano, [contrário] à natureza do homem. Sebastião Frank considerava que o [triunfo] da justiça na terra é absolutamente impossível sem a Paz geral e eterna. Certamente, merece uma especial atenção o problema colocado por Frank, sobre a [responsabilidade] jurídica e moral do homem pelos crimes de Guerra. Ele lançou a ideia de que, os militares que actuam cumprindo a ordem dos seus Chefes [superiores], não podem pretender absolvição jurídica e moral se participam numa Guerra injusta e cometem pilhagem, assaltos e homicídios sobre a população civil.
Do mesmo modo; sebastião Frank, como a maioria dos outros [humanistas] daquele tempo, não era de maneira alguma, um [pacifista] inocente que intervinha pela Paz «a todo custo». Ele por exemplo; reconhecia o direito dos homens a participar nas Guerras justas contra a tirania, contra os conquistadores em defesa do seu país e contra os colonizadores.
Tomas More, grande [humanista] e fundador da Socialismo Utópico, também sonhava com o estabelecimento da Paz na terra. Na sua obra «A Utopia» ele descreveu um país em que é liquidada a propriedade privada sobre os meios de produção e é estabelecido a propriedade social e em que o povo repudia a Guerra de rapina como acção realmente bestial. Tomas More, ao falar, tal como Sebastião Frank, sobre a necessidade da defesa do seu território pelos povos e da luta contra os agressores estrangeiros, escrevia que os povos «nunca começam a guerra em vão, mas somente quando defendem as suas fronteiras ou expulsam o inimigo que invadiu um país amigo, ou têm pena dum povo oprimido pela tirania e com as suas acções libertam-no do jugo do tirano e da escravidão; isso, fazem-no por amor à humanidade».
Como [ardente] defensor da Paz destacou-se o argentino João Baptista Alberti [1810-1884], que escreveu o livro «O Crime da Guerra». Sendo filósofo, jurista, sociólogo, estadistas [destacado] escritor de talento, demonstrou claramente que a Guerra injusta arruína a economia, a cultura, a liberdade e o bem-estar duma Nação.
João Baptista Alberti classificava tal Guerra de crime pelo qual os [responsáveis] deveriam ser submetidos a um [castigo severo]. Ele escrevia assim: «O crime da guerra pode consistir nos seus objectivos, quando se procura a conquista, a destruição total, a vingança aberta, a repressão da liberdade e da independência dum Estado e a escravização dos seus habitantes; nos meios, quando se recorre à traição, engano, incêndio, veneno, corrupção, suborno…». Você vê; a Paz e liberdade são inseparáveis, afirmava João baptista Alberti, elas exercem uma [influência] positiva sobre a educação das pessoas e as qualidades do homem de Paz não se diferenciam das do homem de liberdade.
As ideias da Paz foram defendidas em nome da [moral] pelo filósofo idealista alemão Immanuel Kant [1724-1804]. No «Tratado Pela Paz Perpétua» [1795] do qual aconselho vivamente sua leitura. Kant apresentou a tese sobre a criação da União de Estados livres que [defendesse] a soberania de certos países.
A ideia de Paz geral foi expresso também nas obras dos pensadores [progressistas] russos. A.N. Radíchtchev (1742-1802). Radíchtchev, apelava para a manutenção de relações entre Estados na base do direito e para a solução [pacífica] dos litígios. Além disso; ele compreendia que para salvaguardar uma Paz duradoira é preciso transformar, por via revolucionária, a ordem pública e estabelecer um regime social justo.
Pela Paz entre os povos e a [eliminação] da Guerra na vida da sociedade lutou N.G.Tchernichévski (1828-1880), democrata revolucionário e grande pensador russo. Ele assinalava que o peso da Guerra recai, antes de tudo sobre os trabalhadores. «Toda a guerra é arruinadora para um homem trabalhador; para ele só é útil a guerra que é travada para expulsar os inimigos do território da sua pátria»
Um amplo programa para estabelecer as relações pacíficas entre os Estados e evitar os conflitos militares foi apresentado por V.F.Malinóvski, iluminista russo do século XIX. Na sua obra «Reflexão Sobre a Guerra e a Paz» propôs o projecto da União de todos os Estados, Organizações Internacionais em defesa da Paz, a qual deveria solucionar os [litígios] que surgissem e, caso necessário, aplicar as sanções [coercitivas] contra os responsáveis pela Guerra. V.F.Malinóvski, escrevia: «A guerra, quando não é uma autodefesa forçada, mas a agressão contra o povo pacifico vizinho, é a empresa mais desumana e bestial que ameaça com o extermínio e a devastação não somente o povo agredido mas também, em igual medida, o povo que desencadeia a guerra».
Dentre os modernos Spinoza [1632-1677] é o único a distinguir entre a Paz e a mera ausência da Guerra. Por segurança [Paz] não tem nada a ver com as armas, com as fortalezas, com os exércitos, com a polícia, com as prisões, com sistema penal, serviços secretos e com sistema carcerário.
Para Spinoza a segurança é a ausência de [dúvida] quanto ao bem presente e futuro. Ou seja, ali onde houver [permanentemente] exércitos, polícias, serviços secretos, armas, fortaleza, e prisões secretas, ali o que reina é insegurança [ausência da Paz]. É interessante, porque no nosso [vocabulário] o sector de segurança nos Estado é a polícia, o exército, serviços secretos e prisão. Para Spinoza é exactamente oposto. Isso é o lugar da [insegurança e da ausência] da Paz.
Spinoza analisa os pactos [acordados] entre beligerantes ou entre Estados em vista da Paz, nisso ele está muito próximo de Maquiavel. «Que os pactos dependem das circunstâncias. Cuja mudança pode tornar um pacto nulo».
No seguimento dessa análise, Spinoza insiste que a Guerra pode ser declarada [unilateralmente]. De facto, a Guerra é sempre uma declaração [unilateral] mas…, ele afirma no seu «Tratado Político», que o mesmo não é possível para a Paz. Pois, a Paz depende necessariamente do [acordo] entre as partes beligerantes. Evidentemente, uma Paz [unilateral] é uma contradição em si mesma. Uma Paz [unilateral] é apenas ausência de Guerra. Ausência de Guerra [imposta] pelo vencedor ao vencido; uma Paz [imposta] é pura simplesmente exercício da dominação.
A Paz é um bem, porque antes de tudo traz a certeza a [segurança] e cultiva a vida e é isso que confere sentido a afirmação de Spinoza de que; «a razão ensina absolutamente a buscar a paz».
Se a Paz é [virtude] política não elimina a contingência mas…, age sobre ela. Por [virtude], Spinoza entende, acção guiada pela razão, a qual nos ensina a cultivar a nossa vida, passando das relações passionais [conflituosas] as relações passionais de concórdia. Porque a primeira nos enfraquece e a segunda nos fortalece. A [virtude] não muda o mundo mas ela nos muda.
Justamente, porque não há Paz perpétua; a Paz é [virtude] política num nível muito mais profundo, nível o qual a razão e as [circunstâncias] precisam operar em conjunto.
É nesta difícil operação, que exprime a firmação de Spinoza: «Qual seja a razão ensina absolutamente a buscar a paz e com isso ela muda a nossa relação com o mundo».
Por outras palavras, a Paz é a [potência] para determinar o indeterminado, instituindo a boa relação com as circunstâncias instáveis. Então, você vê, somente a Paz e eu me apoio mais uma vez em Spinoza, é capaz de dobrar e de [enfrentar] o destino e dobra-lo em nosso favor.
Destarte; ao expressar desta maneira as aspirações seculares dos povos a acabar com as Guerras, os pensadores [progressistas] do passado propuseram muitas ideias importantes.
Em último lugar; os ardentes [apelos] à Paz lançadas por grandes [humanistas] do passado, são hoje em dia levados à prática pelos povos do mundo todo.
Manuel Bernardo Gondola
Nampula, 11 de Agosto 20[19]
Sem comentários:
Enviar um comentário