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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

A crise

   
Opinião
Em casa, na escola, nos locais de trabalho, nos copos. Muda-se de local, mas o assunto é o mesmo: a crise. Para a maioria é sinónimo da subida do custo de vida e degradação da estabilidade familiar. Para alguns é motivo para exibir um infinito vocabulário económico e domínio de modelos econométricos, emergindo a nossa verdadeira crise: falta de rigor conceptual, inconsistência argumentativa e pouca clareza expositiva. 
 A economia pode ser entendida e explicada com base em modelos econométricos, mas ela se faz com ideias inovadoras, intervenção e muita sensibilidade, porque o principal factor de produção – o ser humano – vive de emoções.
 Quando falamos da necessidade de mais políticas fiscais, temos de ser rigorosos para afirmar que a eficácia dessas políticas dependem da capacidade de quem as implementa, o que faz emergir necessariamente a questão da qualidade dos gestores públicos (incluindo os de empresas públicas). Também, devemos ser rigorosos para limitar as intervenções monetárias ao alívio dos sintomas e estar cientes de que a eficácia dos mesmos atenuantes baixa ao longo do tempo, quando não se ataca a causa da doença.
 Quando argumentamos que a culpa é da dívida e, simultaneamente, não queremos restrições no acesso ao crédito, estamos a ser inconsistentes. A dívida nunca foi problema. Ela é uma solução que foi pensada para quem quer produzir e não tem recursos, mas tem expectativas de que tal produção será suficiente para remunerar o custo de tal dívida e libertar mais-valias. O problema é a finalidade da dívida e a questão de fundo deve ser onde estão os recursos e como podemos direccioná-los para actividades produtivas. 
 Há falta de clareza na exposição, quando se afirma que há excesso de liquidez na economia e se limita o acesso a essa tal liquidez a quem de facto produz. O que seria expectável é a criação de canais de transferência dessa liquidez para unidades mais produtivas, através de linhas de crédito específicas, de forma a limitar o impacto da subida de juros.
 Caros decisores, se é mesmo para vencer a crise, então:
 Mudem a estrutura da pirâmide. Limitem a quantidade de gestores de topo e apostem em grupos de intervenção. Pessoas capazes de identificar problemas e encontrar soluções. Pessoas que mobilizem outras pessoas a fazer. Pessoas que tenham a sensibilidade para perceber que todos somos úteis, mas que nem todos têm a mesma utilidade. Que se procure, incessantemente, colocar o homem certo no lugar certo.
 Esqueçam as cores. Boas ideias, ainda que coloridas, chegam ao mercado incolores. O mercado é dominado por uma e única lei: equilíbrio entre a oferta e a procura. Coloquem como gestores os mais habilitados para tal e fomentem a cultura de responsabilidade. Quando uma empresa pública entra em dificuldades económicas e/ou financeiras, alguém deve ser responsabilizado. Gerir é tomar decisões e assumir o impacto de tais decisões. Não existe empresa boa ou má. Existe boa e má gestão, que levam empresas para boas ou más condições no mercado.
 Apostem na juventude. Precisamos dos jovens mais inteligentes e verdadeiramente empreendedores na linha da frente, desde a definição de políticas, até à gestão de unidades produtivas. Não me refiro aos tais que têm visibilidade, mas mal distinguem as receitas dos lucros. Estes servem para muita coisa, mas não acredito que sirvam para a solução do actual problema. Façam um levantamento nas instituições de ensino, criem uma lista potencial e façam posteriormente o rastreio da evolução dos que estiverem na tal lista mais restrita. Identifiquem jovens e apostem neles.
 Há muito mais que se diga, mas na crise é preciso poupar tudo, sobretudo as palavras para que seja o quanto baste e deixem o “salão” para as acções. Foram as palavras erradas no momento de crescimento que nos fizeram mudar de rumo. Infelizmente, ninguém foi responsabilizado, mas o silêncio é ensurdecedor.

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